Senhoras
e Senhores,
Os
jornais de ontem informaram que os líderes dos partidos
que integram a base aliada do governo decidiram “enterrar”
o projeto de reforma política na reunião do
Conselho Político, realizada na quinta-feira, durante
a qual discutiram o projeto com o presidente Lula.
Participaram
desta reunião os líderes do PT, do PMDB, e do
PC do B. Os deputados desses partidos com os demais que formam
a base governista dispõem de pelo menos 261 votos na
Câmara dos Deputados. Teriam portanto votos suficientes
para aprovar a reforma no formato que foi levado à
votação. Ainda mais que o projeto contava com
o apoio de parcela expressiva do partido do relator da matéria,
o deputado Ronaldo Caiado, que é do Democratas, ex-PFL,
partido da oposição.
O
PT chegou a fechar questão, demonstrando com essa decisão
o seu enorme interesse na lista fechada e no financiamento
público, mas as divergências manifestadas em
plenário forçaram reavaliações
sucessivas dos partidos e o projeto que foi à votação
esta semana já estava na quarta versão, sem
considerar que a proposição da lista fechada
já havia sido rejeitada na votação do
dia 27.
Esses
fatos indicam que o tema não obteve um formato consensual.
As 346 emendas que o relator recebeu, em parte expressam a
diversidade de percepções que o tema suscita
entre os parlamentares. Em parte porque as razões dessas
diversidades nem sempre correspondem a vinculações
partidárias ou a opções ideológicas,
mas sim a condicionamentos das realidades locais, onde cada
parlamentar disputa os seus votos.
Os
parlamentares foram também surpreendidos pelas reações
contrárias ao projeto, sobretudo à lista fechada
e ao financiamento público, por parte de especialistas,
como também da imprensa, além de manifestações
líderes comunitários, de empresários
e eleitores que chegavam - e continuam a chegar - aos gabinetes
dos deputados. O eleitor ainda prefere, ele próprio,
escolher o seu candidato.
Acredito
que tudo isso faz parte do contraditório, que é
a essência da democracia. O Congresso não pode
atuar de outra forma. É preciso debater à exaustão
matérias complexas como a reforma política de
modo que não corramos o risco de abrigar artifícios
em vez de regulamentos sólidos. A lei tem de ser um
instrumento de interesse público e como tal deve atender
ao interesse geral tendo em vista sempre o desenvolvimento
do país.
Há,
de fato, no projeto em discussão, um excesso de direcionamento
pela instituição do financiamento público.
É compreensível que o Congresso se debruce sobre
essa proposição porque o advento do mensalão
traumatizou o país com a exumação das
práticas de corrupção que o sistema de
doações financeiras de pessoas físicas
e de empresas possibilitava.
A
realização de três CPI não foi
suficiente para inibir a volúpia de políticos
e agentes públicos na exploração de esquemas
assemelhados. A CPI dos Correios, a do Mensalão e a
dos Bingos se limitaram a indicar indiciamentos encaminhados
ao Ministério Público. Elas não apontaram
soluções concretas para o fato gerador daquele
escândalo, que é a legislação que
regula as campanhas eleitorais.
A
reforma política deveria oferecer a solução
que todos esperavam com o advento das CPI e das crises dos
Sanguessugas e da Gautama, que vieram em seguida: uma profunda
reformulação dos sistema eleitoral. Os temas
considerados no projeto que está em discussão
estão presentes nos debates políticos faz tempo:
fidelidade partidária, financiamento público
de campanha, voto de legenda em lista, e o fim das coligações
proporcionais.
Não
há dúvida, portanto, quanto a necessidade da
reforma. E eu acredito que ela será feita porque o
que é necessário acontece independentemente
da vontade e das reações dos agentes políticos.
Temos porém que cuidar para que o processo de mudança
ocorra de forma adequada e que traga aperfeiçamentos
que beneficiem a todos.
É
por isso que defendo o aprofundamento das discussões
e o amplo esclarecimento das proposições do
projeto, dos seus desdobramentos em todo o País, pois
sabemos que as novas regras vão provocar alterações
de procedimentos e exigências nos processos de escolha
de nossos representantes em todas as instâncias de poder.
Na
forma em que foi proposto, o projeto produziu todas essas
dissensões entre os parlamentares e nos partidos políticos.
Por várias vezes, as sessões plenárias
de votação foram interrompidas para que se fizessem
reuniões fechadas de líderes de partidos. Muitos
acordos sobre questões tópicas tirados nessas
reuniões tornavam-se inviáveis horas depois
e assim foram produzidas quatro versões. Nem assim
foi possível um consenso.
O
clima que se instalou na Câmara dos Deputados em torno
da reforma política, provavelmente por se tratar de
um debate eminentemente legislativo como há muito não
acontecia em razão das intervenções do
governo Lula, gera ansiedade por uma solução
rápida.
Eu
não tenho dúvida de que esse ritmo é
muito arriscado. O excesso de ênfase à instituição
do financiamento público é compreensível
mas pode resultar em frustrações. A medida é
fundamental no combate à corrupção, mas
eu entendo que ela só vai trazer os efeitos desejados
se for protegida por mecanismos eficazes de fiscalização
e penalidades suficientemente fortes para estancar o caixa-2
e o dinheiro privado nas campanhas.
Paradoxalmenbte,
esses mecanismos de controle só terão o efeito
inibidor que defendemos se também for instituído
o sistema de listas fechadas. Não há como conciliar
o financiamento público com a lista aberta, que pressupõe
um elenco indeterminado de candidatos, com um número
igualmente numeroso de contas e atuações individuais
ocorrendo de acordo com a renda e interesse de cada um. São
muitas as possibilidades de barganha que em geral se abrigam
no caixa-2.
Temos
de admitir que o projeto, pelo menos no formato atual, não
empolgou como se esperava. E isso é revelador. Para
nós, parlamentares, é um sinal de alerta que
deve ser considerado, é uma indicação
clara para que ampliemos o debate até que o esclarecimento
exaustivo nos conduza à uma proposição
pacificadora.
A
fidelidade partidária, que nos parecia um tema de fácil
compreensão, mostrou que as dificuldades começam
na própria natureza dos regulamentos. Ou seja, não
basta a concordância a respeito da essência da
matéria - ou do mérito, como se costuma dizer.
Houve uma divergência com relação à
forma de fazê-lo. Alguns deputados entendem que é
necessária uma emenda constitucional ao dispositivo
que trata da perda de mandato. Mudou de partido, perdeu o
mandato.
Outros
acham que não é necessário alterar a
constituição. Bastaria estabelecer um prazo
para que o deputado pudesse trocar de partido. Pela proposta
em discussão, o deputado tem de permanecer no partido
pelo qual foi eleito até o mês de fevereiro do
último ano do seu mandato. Ou seja, a três meses
da convenção. O complicador desse mecanismo
é a penalidade. Perda de mandato é matéria
constitucional e o impedimento para concorrer a eleições
é matéria da Lei das Inelegibilidades.
Vejam
como o contraditório é a alma da política.
Esse projeto estava em preparo há mais de três
anos, mas só agora, com os debates, foi possível
tomar o pulso da matéria. Os itens tratados não
tocam em temas fundamentais, que devem integrar uma verdadeira
reforma política. No meu entendimento, não se
pode adiar a discussão sobre o apego ao presidencialismo
que promoveu a concentração de poder na figura
do presidente da república a ponto de confundir Estado
e Governo.
Hoje
o chefe de governo não decorre da maioria parlamentar
mas precisa construí-la – sabe-se lá a
que preço – para ter o apoio necessário
à realização do projeto que o elegeu.
No caso do governo Lula, foi o que levou ao mensalão.
O
chefe de governo deve conviver construtivamente com todas
as forças políticas do País e não
deixar que suas crises contaminem o Estado. O estado deve
ser, sempre, preservado como patrimônio de todos e base
da democracia. Já o governo, é passageiro e
assim deve ser porque é nele que são resolvidas
as tensões político-partidárias.
As
soluções, como é o caso da reforma política,
devem refletir o consenso como resultado do contraditório
no qual atuam as força políticas nomeadas pelo
voto direto, secreto e universal dos brasileiros.
A
reeleição é também um tema fundamental,
tal a inadequação que esse mecanismo tem mostrado,
tanto no uso da máquina publica quanto na confusão
entre o candidato e o chefe de poder. O desequilíbrio
entre os candidatos é da fácil constatação,
na medida em que não se pode evitar que o chefe de
governo programe suas ações para o ano eleitoral
e assim angarie espaços de publicidade. Apresentei
um projeto de emenda constitucional que acaba com a reeleição
dos cargos executivos e amplia o mandato para cinco anos,
como também um novo calendário eleitoral para
ajustar a mudança do tempo de mandato e reduzir os
custos das eleições. O projeto também
desloca para o dia 5 de janeiro a data de posse do Presidente
e demais chefes de poder.
Se
aprovada agora, o primeiro teste dos novos regulamentos da
reforma política se daria nas eleições
municipais do próximo ano. Estamos vendo que as discussões
não têm considerado satisfatoriamente as necessidades
e aspirações dos municípios, que teriam
de assimilar tudo até o início dos primeiros
passos das eleições de 2008.
Esse
aspecto de caráter prático já seria motivo
para maior cautela no tratamento da matéria.
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